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Fly-By (1995)

Descobri Alfonso Vallejo e Fly-By, por acaso, na Livraria Avispa, de Madrid, e seduziu-me, de imediato pela sua linguagem teatral, pelas potencialidades cénicas que continha e pela sua actualidade de que se revestia.

Escrita, decerto, para um contexto histórico diferente daquele em que vivemos, não é, no entanto, por acaso que as suas primeiras representações ocorrem fora de Espanha. A razão está, assim pensamos, na universalidade da sua linguagem e na penetração crítica permanente de que se ereveste o diagnóstico que faz da realidade envolvente em que nos movimentamos no nosso quotidiano.

O fundo de Fly-By é, sem dúvida, uma sociedade fechada. A perícia e o vigor com que A. Vallejo movimenta o seu bisturi remete-nos para uma claustrofobia simbólica, em que as forças da clausura tanto podem ser impostas pela estrutura sócio-política como pelas representações que o nosso conformismo lhe empresta dando às entrelinhas do poder a densidade manietadora e paralisante só comparável ao pesado de que se reveste uma camisa-de-forças nos mais conservadores asilos psiquiátricos.
A cura do mal do século talvez resida, antes de mais, na libertação da imagem criadora de que a ave humana mais não será do que um indicativo. A libertação da imaginação é a fugaao medo e, com ela, o estilhaçar dos mais ou menos sofisticados figurinos do poder e dos poderes. No interior da peça, tal libertação passa pelo voo. No contexto da sua representação, passa, sem dúvida pelo riso. E rir ou voar são as formas mais puras da loucura. Por isso, e porque o teatro é sempre um espaço habitado pela loucura, o voo das personagens e o riso dos espectadores são as armas do corpo teatral, ou seja, dos muitos corpos e dos muitos gestos em que se inscrevem as loucuras do desejo e os desejos de loucura.

Fly-By é um grito de liberdade contra todas as clausuras impostas pela sociedade em que vivemos: nada escapa ao olhar crítico e mordaz, mas trágico e cómico ao mesmo tempo, de Alfonso Vallejo, médico madrileno: contra a loucura social, soltemos o riso sarcástico da nossa sadia loucura e deixemo-lo voar, sem amarras, até ao infinito...

João Maria André