2026
Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos
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Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos
um espectáculo de hoje


Aqueles que são contra o fascismo sem serem contra o capitalismo, que lamenta a barbárie que advém da barbárie, são como pessoas que desejam comer a carne da vitela sem abater o animal.
Bertolt Brecht, «Cinco dificuldades em escrever a verdade», em 1937, panfleto político escrito para ser distribuído ilegalmente na Alemanha nazi.

Cobre-te canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu
Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu


Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores

José Afonso, no «Coro da Primavera», canção incluída no disco Cantigas do Maio (1971)

A crise, a Foice e as duas raças na terra de Yahoo
Este texto de Brecht, Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos, inspirado inicialmente na peça de Shakespeare, Medida por medida, é uma parábola em forma de comédia.
Na peça de Brecht é apresentada a terra de Yahoo, que se encontra em plena crise económica. A produção excessiva de cereais fez baixar os preços e estes não valem o custo de os ceifar. Porém, os proprietários recusam-se a baixar as rendas aos camponeses. E estes revoltam-se. Alguns juntam-se a uma organização que luta para abolir as rendas, a Foice.
Perante este estado de coisas, o Vice-rei eleva a governador, Iberin, um arrivista que tem vindo a seduzir os cidadãos com um discurso ardiloso. Fala da divisão da população em duas raças, de acordo com a forma das suas cabeças – os tchuchos e os tchichos, os cabeças redondas e os cabeças bicudas. Mas se o estratagema tem eficácia para atordoar a maioria da gente, acaba por trazer consequências desagradáveis aos Proprietários, alguns deles também tchichos: perseguições, sentenças de morte, agressões físicas e coação sexual e, pior ainda, ofensas à propriedade, de que o roubo de dois cavalos vem a tornar-se o caso exemplar.
Apesar de tudo, o ambiente está criado para os Proprietários reentrarem no jogo e, finalmente, ser lançada a estratégia que era, desde sempre, preferida: a guerra. Com a guerra a Foice será vencida, a revolta, calada, poderá manter-se a propriedade a salvo da cobiça dos indigentes … E, além do mais, a guerra promete um novo tempo de riquezas colossais, por meio da invasão das nações vizinhas…

Como responder à opressão
Esta é uma das primeiras peças em que Brecht desenvolve a temática do fascismo e questiona as teorias da raça. Inquietantemente, aos olhos com que, hoje, lemos a peça e olhamos o mundo em que vivemos, são também bastante claras as parecenças com o que vemos crescer por toda a parte: manobras populistas de divisionismo como artifícios de conquista do poder e de governação; sistemas tecnológicos controlo social e manipulação das consciências ao serviço de um conjunto senhores que os dominam e com eles enriquecem exponencialmente; intimidações belicistas e aceitação da sua inevitabilidade como solução final.
A peça, quase cem anos depois de Brecht ter começado a escrevê-la, questiona-nos. Qual o fundamento dessa atualidade? Decorrerá, lamentavelmente, da “ordem natural das coisas”, e nada podemos fazer para a alterar? Quase no final do texto, o coro dos Proprietários brinda “Ao que persiste, ao que existe!”, escarnecendo dos inconformados, dos que tentam acabar com as injustiças.
Será que a história se faz e refaz por ciclos, em que conquistas e erros se alternam e repetem, e mais não conseguimos que, morder a sua própria cauda, como a cobra, inexoravelmente? Na peça, a prostituta, Nanna, sabe bem o que está em causa: “Sabe, Senhor Palmosa, eu já vi esse Senhor Iberin a trabalhar. Ontem condenava-nos o Vice-rei, hoje é o Senhor Iberin quem nos condena. Hoje é a Madre Superiora de San Barabas que nos volta a tirar os cavalos: por que razão não há de ser amanhã outra vez o Senhor Guzman?”
O que fazer, então? Será que só nos resta esperar a nossa vez de ser condenados? Resignar-se à opressão. Ou talvez possamos aproveitá-la, quiçá, como o camponês Callas, e ter finalmente os nossos próprios cavalos, ou seja, o que é o mínimo necessário para sobreviver? Ou será melhor e mais digno, como lhe responde Lopez, o camponês revoltoso, combater as injustiças e “ser enforcados, a lutar pela sopa com os criados.”?
Ironicamente, é o proprietário Guzman, caído em desgraça por ser tchicho, que verbaliza o perigo do conformismo: “Desviam o olhar porquê? Não desviem o olhar! Ai, não está certo o que me fazem! Olhem para a minha casaca! Se me abandonarem, amanhã será a vossa vez! E as vossas cabeças redondas não vos vão valer!”
O que fazer? Combater as injustiças? Tentar beneficiar delas? Aproveitar, pelo menos, as migalhas que caem da mesa dos ricos e poderosos?

Porque fizemos este espectáculo
Vivemos um tempo de muitas inquietações. Sobram as perguntas que o nosso tempo nos lança. Inquietações e perguntas de que a peça Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos faz ressoar.
Quando escolhemos, na Bonifrates, trabalhar neste espectáculo – já lá vai um ano inteiro – foi movidos por estas e outras interrogações. No teatro, em geral, no teatro de Brecht, em especial, o mais importante são as perguntas que nos são lançadas, muito mais do que as respostas que nos possam ocorrer.
E se isso se faz com o riso e com a parábola, como neste texto acontece, não é para que o divertimento estupidifique ou a alegoria seja inócua, mas para que a palavra se torne eficiente e a arte sirva para moldar a realidade, como um martelo no ferro quente.
Mais de três de dezenas de cooperadores da Bonifrates, na companhia de outros tantos companheiros e colaboradores participaram neste espectáculo. Trazê-lo a cena, vencendo cansaços e dificuldades, solidariamente, é o que nos trouxe o alento e a confiança imprescindíveis. É a isso que Brecht, ao longo da sua obra, nos incita incessantemente e, de novo, nos versos de «A Balada da Roda da Azenha», com que este espectáculo começa:
“É verdade que a roda parada nunca fica
E que o de cima, em cima não vai permanecer.
Mas para a água, em baixo, isto apenas significa
Que carregar com a roda é o que tem a fazer”


João Paulo Janicas

Ficha Técnica

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    Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos

    Texto: Bertolt Brecht
    Tradução: António Conde
    Encenação: João Paulo Janicas
    Cenografia: José Tavares
    Figurinos: Filipa Malva
    Desenho de Luz: Nuno Patinho
    Cartaz e Folha de sala: Ana Biscaia
    Banda Sonora: Hanns Eisler (música original) e Amílcar Cardoso (novas canções – Hino do Jahoo que Desperta e Canção da Foice – e sons de cena)
    Apoio ao movimento e coreografia: Catarina Trota
    Penteados: Ilídio Design/Carlos Gago
    Cartaz e Programa: Ana Biscaia
    Design de media: Guilherme Almeida
    Design e elaboração de adereços de cena: Ana Biscaia e José Manuel Carvalho
    Execução do dispositivo cénico: Jorge das Neves, Anthony Alexandre e Filomena Mano
    Fotografia de cena: João Gomes
    Gravação dos coros: Gil Figueiredo
    Operação de luz, som e vídeo: José António Almeida e Nuno Patinho
    Assistência de cena: Margarida Caramona e Teresa Paz
    Apoio de camarim: Inês Damasceno
    Bilheteiras:

    Elenco: Alexandra Silva, António Gamboa, Beatriz Ferreira, Beatriz Janicas, Cristina Janicas, Guilherme Almeida, João Damasceno, João Paulo Janicas, João Pinto, José Castela, José Manuel Carvalho, Madalena Albuquerque, Maria José Almeida, Maria Manuel Almeida, Marta Pinto, Paula Santos, Paulo Pratas, Rui Almeida, Rui Damasceno e Susana Faria

    Coros: Amílcar Cardoso, Armando Duarte, Carolina Cardoso, Denise Andrade, Diana Neves, Francisco Vidigal, Ivânia Esteves, João Andrade, Jorge Santos, José Ferreira, Leonor Melo, Olga Correia, Paula Soares, Rafael Andrade e Rodrigo Ferreira (Elementos do CPEEEACMC e amigos)

    Produção da Cooperativa Bonifrates

    Agradecimentos: Rui Paulo Simões e Maria de Fátima Gil

    O cetro do Vice-Rei é a recriação de um objeto cénico de Delphim Miranda, contador de histórias com marionetas, em homenagem à sua obra e companheirismo.
    Apoios: Câmara Municipal de Coimbra
    Escola Superior de Educação de Coimbra, Secção de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Coro de Pais e Encarregados de Educação da Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra, Ilídio Design
    Diário As Beiras, RUC, Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra, ESEC TV

    M/12 anos
    Duração: 2 horas e 30 minutos (com intervalo)

    Estreia a 29 de janeiro de 2026 – Teatro-estúdio Bonifrates (Casa Municipal da Cultura)
    Espectáculos em fevereiro, março e maio de 2026

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