Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos
um espectáculo de hoje
Aqueles que são contra o fascismo sem serem contra o capitalismo, que lamenta a barbárie que advém da barbárie, são como pessoas que desejam comer a carne da vitela sem abater o animal.
Bertolt Brecht, «Cinco dificuldades em escrever a verdade», em 1937, panfleto político escrito para ser distribuído ilegalmente na Alemanha nazi.
Cobre-te canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu
Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
José Afonso, no «Coro da Primavera», canção incluída no disco Cantigas do Maio (1971)
A crise, a Foice e as duas raças na terra de Yahoo
Este texto de Brecht, Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos, inspirado inicialmente na peça de Shakespeare, Medida por medida, é uma parábola em forma de comédia.
Na peça de Brecht é apresentada a terra de Yahoo, que se encontra em plena crise económica. A produção excessiva de cereais fez baixar os preços e estes não valem o custo de os ceifar. Porém, os proprietários recusam-se a baixar as rendas aos camponeses. E estes revoltam-se. Alguns juntam-se a uma organização que luta para abolir as rendas, a Foice.
Perante este estado de coisas, o Vice-rei eleva a governador, Iberin, um arrivista que tem vindo a seduzir os cidadãos com um discurso ardiloso. Fala da divisão da população em duas raças, de acordo com a forma das suas cabeças – os tchuchos e os tchichos, os cabeças redondas e os cabeças bicudas. Mas se o estratagema tem eficácia para atordoar a maioria da gente, acaba por trazer consequências desagradáveis aos Proprietários, alguns deles também tchichos: perseguições, sentenças de morte, agressões físicas e coação sexual e, pior ainda, ofensas à propriedade, de que o roubo de dois cavalos vem a tornar-se o caso exemplar.
Apesar de tudo, o ambiente está criado para os Proprietários reentrarem no jogo e, finalmente, ser lançada a estratégia que era, desde sempre, preferida: a guerra. Com a guerra a Foice será vencida, a revolta, calada, poderá manter-se a propriedade a salvo da cobiça dos indigentes … E, além do mais, a guerra promete um novo tempo de riquezas colossais, por meio da invasão das nações vizinhas…
Como responder à opressão
Esta é uma das primeiras peças em que Brecht desenvolve a temática do fascismo e questiona as teorias da raça. Inquietantemente, aos olhos com que, hoje, lemos a peça e olhamos o mundo em que vivemos, são também bastante claras as parecenças com o que vemos crescer por toda a parte: manobras populistas de divisionismo como artifícios de conquista do poder e de governação; sistemas tecnológicos controlo social e manipulação das consciências ao serviço de um conjunto senhores que os dominam e com eles enriquecem exponencialmente; intimidações belicistas e aceitação da sua inevitabilidade como solução final.
A peça, quase cem anos depois de Brecht ter começado a escrevê-la, questiona-nos. Qual o fundamento dessa atualidade? Decorrerá, lamentavelmente, da “ordem natural das coisas”, e nada podemos fazer para a alterar? Quase no final do texto, o coro dos Proprietários brinda “Ao que persiste, ao que existe!”, escarnecendo dos inconformados, dos que tentam acabar com as injustiças.
Será que a história se faz e refaz por ciclos, em que conquistas e erros se alternam e repetem, e mais não conseguimos que, morder a sua própria cauda, como a cobra, inexoravelmente? Na peça, a prostituta, Nanna, sabe bem o que está em causa: “Sabe, Senhor Palmosa, eu já vi esse Senhor Iberin a trabalhar. Ontem condenava-nos o Vice-rei, hoje é o Senhor Iberin quem nos condena. Hoje é a Madre Superiora de San Barabas que nos volta a tirar os cavalos: por que razão não há de ser amanhã outra vez o Senhor Guzman?”
O que fazer, então? Será que só nos resta esperar a nossa vez de ser condenados? Resignar-se à opressão. Ou talvez possamos aproveitá-la, quiçá, como o camponês Callas, e ter finalmente os nossos próprios cavalos, ou seja, o que é o mínimo necessário para sobreviver? Ou será melhor e mais digno, como lhe responde Lopez, o camponês revoltoso, combater as injustiças e “ser enforcados, a lutar pela sopa com os criados.”?
Ironicamente, é o proprietário Guzman, caído em desgraça por ser tchicho, que verbaliza o perigo do conformismo: “Desviam o olhar porquê? Não desviem o olhar! Ai, não está certo o que me fazem! Olhem para a minha casaca! Se me abandonarem, amanhã será a vossa vez! E as vossas cabeças redondas não vos vão valer!”
O que fazer? Combater as injustiças? Tentar beneficiar delas? Aproveitar, pelo menos, as migalhas que caem da mesa dos ricos e poderosos?
Porque fizemos este espectáculo
Vivemos um tempo de muitas inquietações. Sobram as perguntas que o nosso tempo nos lança. Inquietações e perguntas de que a peça Os cabeças redondas e os cabeças bicudas ou Os ricos dão-se bem com os ricos faz ressoar.
Quando escolhemos, na Bonifrates, trabalhar neste espectáculo – já lá vai um ano inteiro – foi movidos por estas e outras interrogações. No teatro, em geral, no teatro de Brecht, em especial, o mais importante são as perguntas que nos são lançadas, muito mais do que as respostas que nos possam ocorrer.
E se isso se faz com o riso e com a parábola, como neste texto acontece, não é para que o divertimento estupidifique ou a alegoria seja inócua, mas para que a palavra se torne eficiente e a arte sirva para moldar a realidade, como um martelo no ferro quente.
Mais de três de dezenas de cooperadores da Bonifrates, na companhia de outros tantos companheiros e colaboradores participaram neste espectáculo. Trazê-lo a cena, vencendo cansaços e dificuldades, solidariamente, é o que nos trouxe o alento e a confiança imprescindíveis. É a isso que Brecht, ao longo da sua obra, nos incita incessantemente e, de novo, nos versos de «A Balada da Roda da Azenha», com que este espectáculo começa:
“É verdade que a roda parada nunca fica
E que o de cima, em cima não vai permanecer.
Mas para a água, em baixo, isto apenas significa
Que carregar com a roda é o que tem a fazer”
João Paulo Janicas