Do encenador
ao espectador

Escrita em 1983, esta obra de Sastre até hoje por representar – mantinha-se intacta na sua intencionalidade (bem expressa nas sucessivas notas com que o autor a procura explicitar) até ao momento em que começámos os ensaios da leitura.
Poderá o espectador mais distraído não percorrer os materiais que coligimos no programa e julgar que a peça está irremediavelmente prejudicada pelos recentes acontecimentos que alteraram o xadrez internacional e, mais particularmente o europeu neste final da década de 80.
Pode ainda colocar-se a questão (que não é académica!) do espectador não se preocupar com o que se passa à sua volta! Hipótese não de excluir quando por toda a parte se anuncia o fim da história, o fim da ideologia, o fim de tudo...
Julgamos, no entanto, que o tema central – o núcleo “mitológico” – desta peça continua a ter plena actualidade. Mais: veremos se esta “tragédia” de Sastre não assinalará, no plano da ficção, uma notável antecipação do que pode ser a extensão do paradigma do controlo sofisticado a outros espaços geográficos.
Se assim acontecer, Os Homens e as Suas Sombras terão rompido as barreiras da criação situada para se assumirem como grande tragédia sobre “quem controla quem” nas sociedades “altamente desenvolvidas “tecnologicamente avançadas”, colocando a técnica ao serviço da liberdade individual (individualista?) dos incautos cidadãos.
Como muitos, também eu penso que não haverá mais lugar para as polícias de estado”, sobretudo com as características mais que tipificadas pelas sucessivas caricaturas que a história já nos legou... E no entanto existiram!

Sabemos como a informação planetária é dominada por dois ou três impérios que "desinteressadamente" colocam os seus capitais ao serviço da informação objectiva. Tudo está em nossa casa. As transmissões live no alucinante mundo da comunicação parabólica tudo nos oferecem: do circo da fórmula um, à eleição da Miss Universo, a par da "pacífica" invasão do Panamá, ou (menos mostrado!) o quotidiano sacrifício das crianças da intifada em territórios palestinianos...
Este (quarto) poder saído da caixa que transformou o mundo já, no entanto, transferiu as testadas capacidades da tecnologia para domínios mais pessoais e... perigosos! Gravam-se cassetes que podem comprometer o futuro político de homens em ascensão; vê-se quem toca à campainha dos nossos apartamentos graças à discreta... câmara que controla o acesso aos inóspitos castelos de betão em que vivemos...
Nixon falou para fitas magnéticas cuja existência desconhecia; Noriega parece que possui cassetes vídeo, secretamente gravadas, comprometedoras para altos funcionários da Casa Branca...; o primeiro-ministro japonês demitiu-se porumagheixa ter feito queixa... O caso ficou por aqui mas não se sabe se a "acusadora" não possuía elementos comprometedores (e tecnicamente registados) sobre mais um "affaire" amoroso.
O primeiro-ministro deste país veio à televisão defender da calúnia ministros seus, "supostamente" visados em documentos videogravados e magnetofonicamente registados...
A privacidade passou a ser usada publicamente e colocada ao serviço da destruição pessoal e/ou do controle da nossa liberdade que, afinal é uma liberdade vigiada! Os jornais vivem disto; o puritano cidadão alimenta-se, indigna-se e depois esquece.
O poder-dos-olhos-que-não-vemos, urna vez desaparecido o polícia de gabardina, chapéu e atento leitor de um jornal esburacado para melhor ver o que se passava na mesa ao lado, pertence já ao imaginário literário-policial.
Concluiu-se que se pode espiar com melhor rentabilidade de meios e maior eficácia nos resultados. Sobretudo, a memória descritiva sobre cada cidadão é mais facilmente acumulável no pequeno espaço de urna qualquer base de dados do que nos antiquados ficheiros cuja destruição sempre deixava rastos...
Contra este terrorismo do espírito, secreto e oculto polícia de todos e de cada f um, muitos se insurgem, inclusive de forma violenta. Mas a verdade é que neste entrecruzar de linhas policiais (quem é polícia? quem é suspeito?), o pacato cidadão que a maioria de nós não gosta de ser revistado à entrada de um avião, fotografado numa multidão, ver vigiados os seus passos através das inúmeras fichas que tem que preencher sempre que sai de casa: no hotel, no banco, inclusive nos campos de futebol...
Os bodes expiatórios da tragédia de Heizel foram encontrados após visionamento da transmissão televisiva; os barões da droga escondem o rosto perante as câmaras; nas manifestações são muitas as mãos que cobrem o rosto quando dão conta que estão a ser filmados; os polícias que reprimem evitam o olhar "mecânico" das câmeras...
Os olhos humanos - durante muitos séculos considerados as janelas da alma - têm agora duplos mediáticos. Enquanto dormem, outros e outros trabalham por si. E se Deus não dorme, os media assumem-se como cumpridores e zelosos pequenos deuses caseiros, ao serviço das causas nobres como a liberdade. a defesa dos cidadãos, a democracia plena...
Este pois, o IV Reich que se quisermos desviar-nos dos referentes directos invocados por Sastre, nos domina, sobredetermina e predomina. Mesmo que se esqueçam as leituras de Aldous Huxley, Çapeck, Orwell ou Roezler, o império da vigilância laica e fria dos olhos "neutros" e "informáticos" traduzir-se-ão na prática por uma desumanização a que ninguém pode ser insensível.
Depois... depois é esperar pela apoteose dos resultados que sempre acabam por se traduzir na acumulação litúrgica dos dados para uma suspeita. E porque em última instância essa interpretação é feita por homens e recai sobre homens, acaba por se assumir como uma nova versão de destino a que os gregos chamaram moira e os latinos fatum. Aqui reside a essência da tragédia porque surge como inapelável e irreversível.
Por tudo isto, Os Homens e as suas Sombras, julgo poder ser lida com plena actualidade e valor premonitório no início da década de 90.

Oxalá se inquietem!

PS. Como sempre, ignoro qual o acolhimento crítico que o público vai dispensar a este trabalho. A efemeridade da vida do espectáculo esgota ao mesmo tempo que actualiza, o silencioso trabalho preparado neste caso ao longo de quatro meses.
Queria deixar expresso aos meus companheiros de aventura a certeza de que, no momento em que a Cooperativa completa dez anos de vida, o simples facto de ter sido possível levantar este espectáculo é a prova da nossa coesão.
A todos os que a ficha técnica contempla - e a algum outro que por lapso involuntário nele não figure - reconheça-se o mérito do trabalho assumido com dignidade e a coragem do desafio aceite neste tempo de concessão à facilidade.

José Oliveira Barata
       











Sobre o autor

Alfred Jarry (1873-1907) formulou as suas teorias sobre o teatro em textos cujos os títulos e conteúdos eram deliberadamente provocadores. O teatro deve ser simples e mesmo rudimentar, os cenários e as intrigas serão o mais sóbrio possível para permitir a propagação de um teatro do absurdo.
Criando um personagem que anuncia as figuras do ditador, tal como encontramos em Brecht (Arturo Ubi), Jarry utiliza uma linguagem bizarra e desconcertante, mistura de linguagem meio-letrada, meio-vulgar, deforma à-vontade as palavras, é percursor das rupturas cénicas que serão instituídas por Antonin Artaud, os escândalos surrealistas e a intervenção política da literatura, característica da segunda metade do nosso século.
A sua obra de referência: “UBU ROI”. Ubu é um pequeno burguês, funcionário ao serviço do Rei da Polónia. Sob a pressão da sua mulher ambiciosa ele decide matar o Rei para ocupar o seu lugar. Piscar de olho a Macbeth. Mas Ubu é cobarde e mal-criado. Uma vez no trono, revela-se cruel, estúpido, e o seu pensamento político é absurdo.
Ele transforma-se de pequeno burguês a tirano sanguinário, mas não é desprovido de um singular grão de razão, proferindo verdades inquietantes, como verdade saindo da boca de uma criança.
 

 
       
         
 
     
       

Ficha Técnica

Autor
Alfonso Sastre


Tradução
José Oliveira Barata e João Maria André


Dramaturgia
José Oliveira Barata e João Maria André


Actores
Distribuição por ordem de entrada em cena:
Cantora - Ofélia Libório
Hans Magnus - Paulo Neto Parra
Christa - Cristina Janicas
Margarete - Lena Faria
Peter Schiller - Fernando Taborda
Laura - Carole Galaise
Beny - Rui Damasceno
Doutora Kirschoff - Fátima Roxo
Karl - Paulo Janicas
Jutta - Cristina Janicas
Antígona - Maria José de Almeida
Hémon - Paulo Janicas

2 polícias - Paulo Neto Parra e Rui Damasceno
Creonte - Fernando Taborda
Doutor Jenseits - Fernando Taborda
Adalbert Kroll - Rui Damasceno
Wemer - Paulo Neto Parra

3 encapuçados - Carole Galaise, Paulo e Cristina Janicas

Cenografia
Carlos Madeira

Figurinos e Guarda-Roupa
Muriel Diniz Freire

Música
Amilcar Cardoso

Letra da canção
versão portuguesa de João Maria André

Sonoplastia
Luís Magalhães


Luminotecnia
José Altino Pro
dução

Vídeo
Carlos Alberto

Fotografias
Paulo Góis


Carpintaria
Amadeu Martins de Almeida


Adereços
Natália Gante


Programa
Carlos Madeira, José Oliveira Barata,
Maria José de Almeida e Natércia Coimbra


Cartaz
Carlos Madeira


Produção
José Oliveira Barata, Carlos Madeira,
Luís Magalhães e José Altino


Publicidade
Natércia Coimbra


Encenação e Direcção Artística
José Oliveira Barata