Ficha técnica



Textos
de Gil Vicente

Dramaturgia e encenação
João Maria André

Cenografia, figurnos

e desenho de fantoches

Carlos Madeira

Luminotecnia e sonoplastia
Tiago André
João André

Coreografia
João Curto

Adereços e execução
de fantoches
Margarida Diogo

Carpintaria
Mário Sousa

Costureiras
Magna Almeida
Maria Alice Ligeiro

Cartaz
Tiago Madeira

Produção
Maria José Almeida
João Paulo Janicas

Outros colaboradores
Dalila Salvador
Lucília Figueiredo

Actores
João Paulo Janicas

Comediante
Maria José Almeida

Personagens e sua proveniência
Frei Paço - Romagem dos Agravados
Colopêndio - Romagem dos Agravados
Feiticeira - Auto das Fadas
Mercúrio - Auto das Fadas
Diabo - Auto da Feira
Serafim - Auto da Feira
Cigana - Auto da Festa
Clérigo Nigromante - Exortação da Guerra

Apoios
Pelouro da Cultura da C. M. Coimbra
Fundação Calouste Gulbenkian
 
 
         
   

O espectáculo

O universo de personagens criadas por Gil Vicente é extremamente rico e diversificado. Por ele passam os principais tipos sociais do seu tempo, desde reis e nobres a diabos, profetas, vilãos, soldados e outra gente do povo. E é na sua composição que se exerce de forma acutilantes uma crítica implacável aos vícios do seu tempo. Se há personagens que são efémeras, outras furtam-se aos limites do tempo e através delas que os textos de um clássico podem ainda hoje ser visitados com uma actualidade em que palavras velhas de séculos se acendem de novo no seu dinamismo irónico e implacável para com as máscaras subtis que a sede do poder muitas vezes ostenta.

Este é um espectáculo que se pretende de sensibilização aos textos do Grande Mestre do teatro português. E fá-lo mediante dois recursos que o inscrevem num registo que tem muito a ver com a actualidade. Em primeiro lugar, o recurso temático: a magia e a astrologia nas suas variadas formas. Se era uma presença constante na época renascentista, não deixa de o ser nos tempos de hoje, em que novos milenarismos já fazem prever novas confluências cósmicas, em que até a TV nos oferece um boletim astrológico, em que os poderes da razão vão sucumbindo aos ataques das mais disfarçadas formas de irracionalismo e com os mais suspeitos intuitos… Em segundo lugar, o recurso interpretativo: todas as personagens convocadas para este exercício de magia com os textos de Mestre Gil são, magia das magias, interpretadas por um só actor (género “one man show”). Porque talvez seja actor a grande personagem de Gil Vicente: aquela que nunca aparece mas que, afinal, dá o corpo a todas as que aparecem. É por isso que representar Gil Vicente, hoje e sempre, deveria ser, mais do que tudo, um hino ao teatro e àqueles que o fazem.

O teatro é festa, cerimónia, ritual. Mito e magia. Celebração. Começou por sê-lo e sê-lo-á sempre. O teatro é o corpo mágico (sagrado?) do actor. Mas… sendo a mais efémera de todas as artes, nele é tudo tão real que… tudo é máscara, tudo é fábula. Como o mágico corpo do mundo:

Levantai aos céus as mãos;
esforçai;
e não pasmedes
das más cousas que veredes.
(…)
Se vos tremerem as peles
d’espantos e de temores,
hi estão vossos servidores,
esncostade-vos a eles
e cobride-vos d’amores.

Mestre Gil dixit.


João Maria André