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O
espectáculo
O universo de personagens criadas por
Gil Vicente é extremamente rico e diversificado. Por ele passam os
principais tipos sociais do seu tempo, desde reis e nobres a diabos, profetas,
vilãos, soldados e outra gente do povo. E é na sua composição
que se exerce de forma acutilantes uma crítica implacável aos
vícios do seu tempo. Se há personagens que são efémeras,
outras furtam-se aos limites do tempo e através delas que os textos
de um clássico podem ainda hoje ser visitados com uma actualidade
em que palavras velhas de séculos se acendem de novo no seu dinamismo
irónico e implacável para com as máscaras subtis que
a sede do poder muitas vezes ostenta.
Este é um espectáculo que se pretende de sensibilização
aos textos do Grande Mestre do teatro português. E fá-lo mediante
dois recursos que o inscrevem num registo que tem muito a ver com a actualidade.
Em primeiro lugar, o recurso temático: a magia e a astrologia nas suas
variadas formas. Se era uma presença constante na época renascentista,
não deixa de o ser nos tempos de hoje, em que novos milenarismos já fazem
prever novas confluências cósmicas, em que até a TV nos oferece
um boletim astrológico, em que os poderes da razão vão sucumbindo
aos ataques das mais disfarçadas formas de irracionalismo e com os mais
suspeitos intuitos… Em segundo lugar, o recurso interpretativo: todas
as personagens convocadas para este exercício de magia com os textos de
Mestre Gil são, magia das magias, interpretadas por um só actor
(género “one man show”). Porque talvez seja actor a grande
personagem de Gil Vicente: aquela que nunca aparece mas que, afinal, dá o
corpo a todas as que aparecem. É por isso que representar Gil Vicente,
hoje e sempre, deveria ser, mais do que tudo, um hino ao teatro e àqueles
que o fazem.
O teatro é festa, cerimónia, ritual. Mito e magia. Celebração.
Começou por sê-lo e sê-lo-á sempre. O teatro é o
corpo mágico (sagrado?) do actor. Mas… sendo a mais efémera
de todas as artes, nele é tudo tão real que… tudo é máscara,
tudo é fábula. Como o mágico corpo do mundo:
“Levantai aos céus as mãos;
esforçai;
e não pasmedes
das más cousas que veredes.
(…)
Se vos tremerem as peles
d’espantos e de temores,
hi estão vossos servidores,
esncostade-vos a eles
e cobride-vos d’amores.”
Mestre Gil dixit.
João Maria André
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