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| Ficha
Técnica Texto Alicia Guerra Tradução, Adaptação e Encenação João Maria André Cenografia e Figurinos Carlos Madeira Desenho de Luzes Luís Barbeiro Realização e Montagem Vídeo Gonçalo Barros Operador de Som e de Vídeo Alexandre André Operador de Luz Tiago André |
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O
espectáculo Mas o que mais
nos interpela neste espectáculo do quotidiano não é tanto a
violência do quotidiano, que sempre existiu nas suas formas mais
explícitas e nos seus mais subtis processos de recalcamento; é,
sobretudo, a encenação da violência do quotidiano
e no quotidiano. Porque a grande característica da presença
da violência nos nossos dias, mais do que o seu crescimento, é antes
o aumento das sua representações, o cuidado posto nas
suas encenações mediáticas e, principalmente,
a receptividade a essas mesmas e, principalmente, a receptividade a
essas mesmas encenações. Porque a violência, em
si, não tem idade nem tem século. Ou tem a idade de toda
a forma de criação: criar é sempre exercer alguma
violência sobre a violência do caos, e toda a arte é uma
instauração de formas sobre a ausência de formas
sobre as suas figuras anteriores; e, na sua versão mais radical, é uma
abertura do futuro nos horizontes do nada, que, como nada, é a
clausura violenta de todo e qualquer horizonte e, por isso, de todo
e qualquer futuro. Mas não é com essa violência
que a sociedade actual nos sacode e nos agita. É, antes com
a violência que se escreve no reverso da criação
e da arte, que está mais perto de Thanatos que de Eros. É o
espectáculo dessa violência que o final do Século
XX inscreve vertiginosamente no nosso quotidiano. E é também
pelo espectáculo dessa violência que o homem do Século
XX se sente vertiginosamente atraído. Mas quando se
passa da violência à sua
encenação e à sua representação,
passa-se também, simultaneamente, do plano do real ao plano
do imaginário e do simbólico. E, nesta transição,
começam a desvanecer-se as fronteiras entre o real e o virtual,
de tal modo que a representação simbólica e imaginária
do virtual pode dar-lhe a densidade material que é muitas vezes
mais evidente e maciça do que a do próprio real. É por
isso que todas as encenações da violência são,
simultaneamente, um desafio e um risco: um desafio à capacidade
de dizer a violência nos seus excessos e de a denunciar pela
evidência das suas imagens, mas também um risco na medida
em que os fios com que se tece essa sua evidência são
os mesmo que conduzem aos labirintos da sua consumação,
numa permanente transgressão dos limites do real, do virtual
e do simbólico. |
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