sobre A Pesca

Peça curta, A Pesca parece conter na sua cena única a riqueza de uma obra maior. Abre em tom festivo e divertido, com bêbedos, um casal desavindo e traições sexuais que duram até ao cair da noite e do escuro. Porque é após esta espécie de black out cénico, útil também para esconder uma cena de amores proibidos, que um texto que parecia a princípio um Beaumarchais de classe baixa, com aguardente e piropos, se torna, com a sugestiva queda de uma pedra pesada e da rede que esta arrasta, numa tragédia russa com a miséria de, por exemplo, Na Estrada (peça curta de Tchékov) ou Albergue Nocturno de Gorki.
É então que aparece a melancolia poética e venenosa característica do jovem Brecht, o ambiente das tabernas de Baal e a moral dos que lutam e pescam. Se começámos em ambiente de festa, terminamos, embora sem tragédia, com um sentimento dúbio e por isso mais amplo e rico, característico daquilo que é para mim a melhor literatura. Aquela que se escreve, como diria Brás Cubas nas suas Memórias Póstumas , “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

José Maria Vieira Mendes Dramaturgo e tradutor
 
Nota de encenação ao jeito de Brecht

Viestes cá para ver teatro, mas há que perguntar-vos:
qual o vosso objectivo? Viestes fugir do vosso estreito mundo,
sentir a vertigem das alturas ou o frémito do lodo,
presos nas garras das caretas e frenesis que vos exibimos?
Basta! Isso é pouco! Não sabeis, então, o que já todos sabem,
que a rede foi tecida e lançada pelos homens?

Uma rede pode ser a mais dissimulada das prisões.

Pode soprar a brisa da manhã, como quem une ou junta,
e ela apertar, tolher, suster a vida por um fio, sem viver.
Ou mesmo asfixiar, cortar os corpos como facas de seda.
Mas não é obra fácil romper a rede. E remendá-la
pode parecer a mais doce solução. Para além do mais,
com a música sempre atrás, o álcool é uma bela prisão.

Vede o pescador estropiado chegar bêbado a casa. Lá está a mulher.
Mas a cama ficou quente para outro que o acompanha.
É nela que a faina termina, quando o mar já não dá peixe.
Se olhardes para a mulher, pensai também duas vezes no que vedes.
É possível sentir-se morto na sua própria pele quando ninguém lhe toca.

Já sabia Homero, quando falava dos deuses, de que são feitos os homens.
Quando Ares e Afrodite fizeram amor em casa do deus aleijado,
Hefesto forjou cadeias finas com teias de aranha.

Há que perguntar a quem grita ele, quando se posta aos portões,
dominado pela sua ira feroz. Aos deuses ou a nós?
E quem são os peixes a quem o pescador lança a sua rede?
E a ele quem o pescou?

João Paulo Janicas

Ficha técnica
Texto
Bertolt Brecht

Tradução
José Maria Vieira Mendes


Encenação
João Paulo Janicas

Cenografia, cartaz
e programa

Cristina Janicas,
João Sá
e Rita Madeira

Música
Luís Pedro Madeira

Desenho de luz
Nuno Patinho

Fotografia
Rui Centeno

Penteados
Ilídio Design

Carpintaria
Inácio Trindade

Serralharia
Valdemar Margalho


Elenco
O pescador
Rui Damasceno

A Mulher dele

Alexandra Silva

Primeiro Homem
Francisco Paz

Segundo Homem
Paulo Martins

Os seis
(só quatro) pescadores

Daniel Silveira
João Gouveia
José Manuel Carvalho
Rui Faustino


O Mendigo
(também músico):
Luís Pedro Madeira

A Mendiga
(também cantora):
Alexandra Silveira

Apoios
RUC
Diário As Beiras
Diário de Coimbra


Agradecimentos
António Lé
(Presidente da Centro Litoral
- Organização de Produtores
da Figueira da Foz)


Grupo subsidiado por
Câmara Municipal de Coimbra
Delegação Regional do Centro
do Ministério da Cultura

 
 
As canções

Canção do mar
José Loureiro Botas l Luís Pedro Madeira

Não pretendas unir vidas
por ofensas desligadas.
Nas linhas, quando partidas
ficam nós depois de atadas.

Não condenes num segundo
alguém que não foi ouvido
pois no charco mais imundo
anda o céu reflectido.

A alma do mar é boa!
Dá tudo o que nele encerra.
Sem querer mata uma pessoa,
Soluçando a dá à terra.

Muito há-de sofrer o mar,
pois, quer seja bravo ou manso,
soluça até rebentar,
noite e dia sem descanso!

Não rogues pragas ao mar.
Já basta a tua desgraça.
Não o ouves soluçar
quer faça mal ou não faça.

xxxxxx

A barca dos sentidos
João Maria André l Luís Pedro Madeira

Lancei ao mar as redes do meu sonho
no barco em que viajo sem sentido...
Nas redes me lancei,
nas redes te encontrei
e o sonho fez-se a barca dos sentidos...

Teu corpo é este mar em que me perco,
teus olhos são a cama em que me deito
e as mãos com que me enlaças,
as mãos com que me abraças
lençóis em que me enrolo no teu peito.
Teus beijos são a luz em que mergulha o meu olhar
tão nu e tão sem jeito para amar...
De ti faço o meu cais onde podemos repousar
e onde o tempo pára sem parar.

Lancei ao mar as redes do meu sonho
no barco em que viajo sem sentido...
Nas redes me lancei,
nas redes te encontrei
e o sonho fez-se a barca dos sentidos...

Aprendo a tua pele nos meus dedos
e sei na tua voz a voz do vento...
Mastigo o teu suor,
navego o teu calor
E é dentro de ti que eu me invento.
Teus beijos são a luz em que mergulha o meu olhar
tão nu e tão sem jeito para amar...
De ti faço o meu cais onde podemos repousar
e onde o tempo pára sem parar.

xxxxxx

Cantiguinha
Bertolt Brecht l Luís Pedro Madeira  

1

Era um homem um vez
Que quando os dezoito fez
Começou a beber, – e…
“Foi assim que me perdi.”
Aos oitenta foi morrer De quê – é claro de ver.

2
Era um menino uma vez
Que morreu com rapidez
Quando tinha um ano – e
“Foi assim que eu faleci.”
Nunca bebeu, claro está,
E morreu c'um ano já.

3
Daqui se vê claramente:
Álcool não faz mal à gente…

xxxxxx

A Donzela Afogada
Bertolt Brecht l Luís Pedro Madeira

1
Quando se afogou e foi levada
Dos ribeiros para o rio mais fundo,
A opala do céu brilhou maravilhada
Como para afagá-la ao deixar este mundo.

2
Sargaços e algas a ela se prenderam
E assim se foi fazendo mais pesada;
Os peixes, frios, pelas pernas se meteram,
Plantas e bichos lhe agravaram a última jornada.

3
E o céu do entardecer fez-se escuro de fumo
E à noite co'as estrelas manteve a luz pairante.
E de manhã estava claro, pra que houvesse
Pra ela inda manhã e tarde cintilante.

4
Quando o seu corpo branco apodreceu na água,
Aconteceu (aos poucos), Deus esquecer-lhe as graças:
Primeiro a cara, as mãos depois, só por fim os cabelos,
E assim se fez nos rios carcassa entre carcassas.

 

Hefesto, Afrodite e Ares

Afrodite era a mulher de Hefesto, o deus coxo de Lemnos. Contudo amava Ares, o deus da Guerra. Homero [ Odisseia , Canto VIII, 266-366] refere como os dois amantes foram surpreendidos, uma manhã, pelo Sol, que logo foi dar a novidade a Hefesto. Este preparou, em segredo, uma armadilha: tratava-se duma rede mágica que só ele podia manejar. Um dia em que os dois amantes estavam abraçados no leito de Afrodite, Hefesto fechou-os na rede e chamou todos os deuses do Olimpo, o que provocou neles a mais viva hilaridade. A pedido de Posídon, Hefesto consentiu em retirar a rede. A deusa partiu, envergonhada, para Chipre e Ares para a Trácia.

Pierre GRIMAL,
Dicionário da Mitologia
Grega e Romana
, Difel, p. 10