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O Principezinho (2001)

Revisitar o Principezinho

Há sonhos que carregamos connosco durante anos, ora adormecendo-os nas canseiras da vida, ora despertando-os na ternura com que começamos a descer as encostas do tempo, ora acedendo neles à lucidez poética que a administração dos dias nos vais negando.

Saint-Exupéry sonhou, há muitos anos, um principezinho, vindo de fora, de um planeta (im)possível, a vaguear no espaço cheio de lonjuras que o avião apenas também só podia inventar na fragilidade do seu motor e das suas asas. Por mim, há anos que sonho essa criança sobre as tábuas do palco. Sem grandes artifícios, a não ser o deixar falar as palavras de quem primeiro o sonhou. Mas com uma diferença: de que não há sonhos que nãos nos salvem se é de fora que os esperamos. Tudo está aqui, na terra, ao nosso lado, sob os nossos pés, à espera de que aprendamos a ver o essencial que, afinal, “é invisível para os nossos olhos”.

É por isso que neste projecto de releitura de um clássico da nossa infância, essa idade em que coincidem todas as idades do homem e de todos os homens do mundo, o principezinho não caiu do céu, mas surge do seio da terra, os planetas deixam as estrelas fazer a sua dança eterna e emergem do chão do deserto, nas crateras dos vulcões donde também nascem rosas, flores e serpentes… A toca da raposa é o buraco do tempo do principezinho e os habitantes dos planetas erguem-se sobre o seu e nosso chão, mostrando-nos ao espelho as nossas vaidades, as nossas pretensões, a nossa insensatez, a nossa mesquinhice, a nossa oca erudição, mas também a grandeza dos pequenos gestos com que apagamos o dia e acendemos a noite. Se os representamos com marionetas é para mostrar como também nós deixamos conduzir tantas vezes por amares invisíveis, é para perceber como imperceptíveis são os fios da morte com que a serpente nos faz regressar à terra donde saímos e faz regressar à noite os sonhos que nos habitaram… De carne e osso é a raposa que nos continua a ensinar os rituais da ternura, é também o vendedor que administra as pílulas da sede nos caminhos do desejo, é ainda o agulheiro que gere as viagens nos comboios do espaço do tempo. Ah, é verdade: e o principezinho que sonhamos (ou foi ele que nos sonhou a nós?...) quando o nosso avião já se mostra incapaz de voar…

Comecei por sonhar o principezinho e os seus planetas como quem abre uma caixinha de música e se deixa hipnotizar pela sua leveza. Descubro agora, como o piloto do avião, que me esqueci de pôr a correia de correia de couro no açaimo da ovelha. A música vai parar e os homens não sabem se as ovelhas são capazes de conviver pacificamente com as flores. Vai uma aposta? O melhor é começar tudo de princípio e voltar a habitar o mundo que começa para lá (ou para cá?) das músicas com que se faz alegria.

    João Maria André