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A Pesca (2006)

Nota de encenação ao jeito de Brecht

Viestes cá para ver teatro, mas há que perguntar-vos:
qual o vosso objectivo? Viestes fugir do vosso estreito mundo,
sentir a vertigem das alturas ou o frémito do lodo,
presos nas garras das caretas e frenesis que vos exibimos?
Basta! Isso é pouco! Não sabeis, então, o que já todos sabem,
que a rede foi tecida e lançada pelos homens?

Uma rede pode ser a mais dissimulada das prisões.

Pode soprar a brisa da manhã, como quem une ou junta,
e ela apertar, tolher, suster a vida por um fio, sem viver.
Ou mesmo asfixiar, cortar os corpos como facas de seda.
Mas não é obra fácil romper a rede. E remendá-la
pode parecer a mais doce solução. Para além do mais,
com a música sempre atrás, o álcool é uma bela prisão.

Vede o pescador estropiado chegar bêbado a casa. Lá está a mulher.
Mas a cama ficou quente para outro que o acompanha.
É nela que a faina termina, quando o mar já não dá peixe.
Se olhardes para a mulher, pensai também duas vezes no que vedes.
É possível sentir-se morto na sua própria pele quando ninguém lhe toca.

Homero já sabia, ao falar dos deuses, de que são feitos os homens.
Quando Ares e Afrodite fizeram amor em casa do deus aleijado,
Hefesto forjou cadeias finas com teias de aranha.

Há que perguntar a quem grita ele, quando se posta aos portões,
dominado pela sua ira feroz. Aos deuses ou a nós?
E quem são os peixes a quem o pescador lança a sua rede?
E a ele quem o pescou?

    João Paulo Janicas