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Os malefícios e outras virtudes do tabaco (2002)

O ESPECTÁCULO

Lançámo-nos para esta produção teatral empurrados pela referência mítica do monólogo “Os malefícios do tabaco”, de Tchekhov (1903), a que se juntou a descoberta fortuita do conto “Não Fumar” (1999), de José Miguel Sarda, nas páginas de um jornal. Foi o encontro entre estes dois textos que fez nascer o desejo dramático e, de seguida, a procura dos contrapontos do enredo que vieram com o escrito do Padre Jerónimo da Mota, “Censura do Tabaco” (1698), e a comédia de costumes de Pedro Carlos de Alcântara Chaves, “Viva a liberdade... do tabaco” (1865).

No cruzamento desses textos cruzam-se as tensões contraditórias que os hábitos humanos ligados ao consumo do tabaco desde sempre - e também hoje - provocaram. O que neles se mostra nitidamente é a cumplicidade entre os hábitos tabágicos e as particularidades do ser humano, ou seja, que nos comportamentos ligados aos consumo do tabaco se projectam e manifestam os próprios desejos e frustrações, os sonhos e pesadelos, as ousadias e medos, os vícios e virtudes dos homens.

Assim, o falar do tabaco não pode ser um discurso simples, linear ou de clareza maniqueísta, pois, em última instância, do que se fala é do nosso complexo e ambíguo modo de ser. Assim, quando se julgam os hábitos tabágicos, emitem-se sentenças sobre comportamentos humanos, sentenças que só têm a justa medida da cabeça de quem as profere, quer dizer, são frágeis construções humanas em que, o mais das vezes, é muito subtil a diferença entre o bem e o mal. Por isso, “malefícios e outras virtudes” do tabaco.

Assim, as arrogâncias e os fundamentalismos purificadores anti-tabágicos, tal como outras ideologias anunciadoras de uma humanidade definitivamente limpa, saudável e quase imortal (por via de tecnologias várias como a clonagem, certa psicologia ou um liberalismo globalmente apaziguador), mais não serão do que formas encapuçadas de hipocrisia dos mais fortes e da sua vontade de dominação, tal como o médico que, durante a consulta, exala sobre o paciente atacado de bronquite asmática os prazeres do fumo juntamente com decretos e ameaças policiais.

Quanto ao objecto teatral que construímos, ele foi sendo entretecido como uma trama lassa de relações. Quer dizer que os fios que tecemos ou puxámos, tanto no enredo dramatúrgico como na sua encenação, nunca são totalmente rematados ou cortados a direito. Por isso, estamos num lugar de qualquer parte e num tempo de muitos tempos; participamos de um diálogo de monólogos e de um entremez definitivamente episódico; partimos de um amontoado supostamente aleatório de mobiliário e de um biombo de luz que mostra/esconde pouco a pouco; conhecemos personalidades falhadas e identidades duplas; arremedamos a análise psicanalítica e as sessões de psicodrama…

Mas perante a ambiguidade e a indistinção que quisemos propor, foi no cimento da estrutura plástica, da música e, mais que tudo, do trabalho dos actores que fazem o espectáculo, que procurámos encontrar a unidade dos momentos e a densidade das alusões.

Que eu saiba, o homem é o único animal que fuma e é desta estranha particularidade que esta peça teatral fala.

    João Paulo Janicas